SP: 08/06/2017 – 18h18

Britânico cria tour por melhores grafites de São Paulo

por Charles Humphreys/ Estudante da Universidade de Oxford

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Fruto de ação política ou simplesmente de uma manifestação artística espontânea, o grafite se disseminou por São Paulo colorindo os muros da cidade. Foto: Charles Humpreys

Como Caetano Veloso diz na música Sampa, “da dura poesia concreta de tuas esquinas”, a beleza de São Paulo não é tão óbvia quanto a de outras cidades. Com as palavras de Caetano na cabeça, resolvi ir atrás dos grafites de São Paulo e acabei preparando o roteiro abaixo. Ao meu ver, ele revela a essência da vida paulistana e a surpreendente beleza estampada em locais inusitados: de esgotos até os mais altos andares de prédios. A viagem pelos grafites é também uma forma de se conhecer a cidade por meio da crítica social exposta na arte urbana. Fotografei meus preferidos e será fantástico receber dicas dos leitores do meu blog ‘Para Inglês Ver’ e do Portal R.A.J, com registro de arte urbana imperdível em São Paulo e em todo o Brasil.

Vila Madalena & Pinheiros

Em meio à boemia da Vila Madalena, muros e lojas ganham o colorido do grafite. Quem passa pelas ruas Gonçalo Afonso e Medeiros de Albuquerque fica impressionado com a galeria a céu aberto de grafites pintados com tinta spray, feitos principalmente por artistas brasileiros, conhecida como Beco do Batman.

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Grafite do homem-morcego deu origem ao apelido do local que passou a ser conhecido como Beco do Batman. Foto: Charles Humpreys

A história do Beco começou na década de oitenta, quando surgiu na parede da rua Harmonia um desenho do homem-morcego dos quadrinhos. A novidade fez com que estudantes de artes plásticas começassem a criar desenhos de influência cubista e psicodélica nas paredes do Beco.

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A fama do Beco do Batman criou um código de ética entre os grafiteiros. Foto: Charles Humpreys

De lá para cá, cada centímetro de muro do Beco foi sendo coberto por intervenções de tinta aerossol brilhantes e estilizadas feitas por grafiteiros reconhecidos internacionalmente como Speto (acima, segundo à direita).

Embora seja uma galeria informal, o espaço é disputado constantemente por artistas que buscam expor seus trabalhos, e por isso foram criadas algumas regras essenciais para garantia da ordem: quem pintou no muro permanece “proprietário” da parte específica que usou. Um grafiteiro deve obter a autorização do “dono” para usar o espaço já coberto.

Hoje em dia, a viela está em constante mudança. Em cada nova visita é possível observar a evolução do Beco ao longo do tempo.

Quem passa pelas proximidades se depara com inúmeras obras de artistas brasileiros de peso, incluindo uma de Paulo Ito que fica na rua Mario de Alencar, e uma de Mundão que fica num estacionamento na rua Harmonia:

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No Beco do Batman também podem ser vistas obras de artistas com reconhecimento internacional, como Paulo Ito. Foto: Charles Humpreys

Acho este desenho estimulante pela mensagem social que parece passar. Embora o estilo de Paulo Ito não seja realista, este grafite aborda uma realidade social e parece refletir a tendência do ser humano de tentar evoluir permanentemente e se adaptar às novas condições de vida.

É possível que Ito queira dizer que, por mais que tentemos nos reinventar, lá, no lugar mais profundo de nosso ser, seremos eternamente os mesmos.

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A crise hídrica que assombra os paulistanos serviu de inspiração para essa obra do grafiteiro Mundão. Foto: Charles Humpreys

Este grafite ressalta a atual escassez de água que vem prejudicando a qualidade de vida de milhares de paulistanos. O trabalho de Mundão parece fazer uma crítica ao governo pela falta de organização na utilização da água das represas, e também uma crítica à ação da Polícia Militar (a moça no meio segura um cartaz no qual se lê ‘A PM mata mais do que os conflitos na faixa de Gaza’).

Na rua Luiz Gama, perto da rua Harmonia, me deparei com um grafite que me chamou a atenção.

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Obras de grafiteiros estrangeiros também podem ser encontradas nos muros de São Paulo, como esta do inglês Fin DAC. Foto: Charles Humpreys

Esta intervenção foi realizada por um grafiteiro inglês chamado Fin DAC. Fiquei impressionado pelo realismo que o artista consegue através do aperfeiçoamento de um estilo e técnica atípicos e pouco convencionais que reúnem o uso de estêncil e de tinta.

Outra obra do Fin DAC pode ser vista perto da rua Madalena e me assombrou por razões idênticas.

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Outro grafite do inglês Fin DAC. Foto: Charles Humpreys

Quem passa pela rua Paulo Gontijo de Carvalho descobre os desenhos de Crânio, um grafiteiro brasileiro renomado. As suas obras podem ser vistas no Beco do Lira, um beco mais estreito do que o Beco do Batman.

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O grafiteiro Crânio homenageou os índios brasileiros nesta obra em muro da rua Paulo Gontijo de Carvalho. Foto: Charles Humpreys

Este grafite acima me fez refletir sobre a situação cada vez mais precária dos índios no Brasil. Crânio se opõe com veemência ao tratamento atualmente dado aos índios pelo governo brasileiro e ao que ele entende ser a exploração desse povo.

Essa crítica é ampliada no grafite seguinte no qual o artista parece fazer alusão aos projetos e empreendimentos governamentais na Amazônia que ameaçam a subsistência do povo indígena.

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A exploração desenfreada da Amazônia é retratada neste grafite de Crânio. Foto: Charles Humpreys

Eduardo Kobra

As intervenções de Eduardo Kobra se espalham por toda a cidade. Foram as obras dele que mais me impressionaram dentre todos os artistas, pelo seu realismo e sua expressão de movimentos.

A arte de Kobra se dedica a pedir proteção aos animais e a defender seus direitos, como esta a seguir que fica na rua Belmiro Braga, mais conhecida como Beco do Aprendiz.

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Kobra dedica sua obra à defesa dos direitos dos animais. Foto: Charles Humpreys

Este outro está na avenida Brigadeiro Faria Lima, bem perto do Instituto Tomie Ohtake.

Achei estes grafites muito poderosos. Na obra abaixo Kobra aproveita a perturbação e desconforto que causa ao observador e tenta convencê-lo que a tourada “não é cultura, mas sim tortura”.

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Através da inquietação que seus desenhos criam, Kobra tenta conscientizar o público para os problemas dos animais. Foto: Charles Humpreys

Incluí estas obras porque acho o estilo delas bem diferente do modelo de ilustração que Kobra utiliza na maioria de suas intervenções. Os grafites retratam cenários bem vivos.

Em Pinheiros, a gente se depara com um painel gigante de Kobra que enfeita as paredes laterais da loja da Fnac na rua Pedroso de Moraes. Ali, o artista paulistano usa sua marca registrada em um grafite tão realista que até parece uma fotografia.

Kobra homenageia Chico Buarque e Ariano Suassuna neste painel de onze metros por dezessete metros no qual usou aproximadamente trezentas latinhas de spray!

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O desenho hiper-realista sobre um fundo colorido é uma das marcas registradas de Kobra. Foto: Charles Humpreys

Ainda em Pinheiros, Kobra exibe seu realismo no mural Club 27, na rua Sumidouro. Com um realismo impressionante ele homenageia seis artistas falecidos aos 27 anos, membros portanto do clube dos 27 – podem ser vistos, de cima para baixo as duplas: Janis Joplin e Amy Winehouse, Jimi Hendrix e Jean-Michel Basquiat e Jim Morrison e Kurt Cobain:

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Mortas tragicamente aos 27 anos, Janis Joplin e Amy Winehouse foram homenageadas na obra de Kobra. Foto: Charles Humpreys

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O guitarrista Jimi Hendrix e o artista plástico americano Jean-Michel Basquiat são ambos “membros” do Club 27. Foto: Charles Humpreys

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Jim Morrison e Kurt Cobain também são lembrados na arte de Kobra. Foto: Charles Humpreys

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O arquiteto Oscar niemeyer é retratado por Kobra neste gigantesco grafite. Foto: Charles Humpreys

Mas, o grafite mais imperdível de Kobra é incontestavelmente a sua homenagem gigantesca a Oscar Niemeyer.

Quem passa pela Avenida Paulista direção sul se depara com uma ilustração do arquiteto, de 52 metros de altura e 16 metros de largura. Kobra e outros quatro artistas da sua equipe passaram um ano colorindo o edifício Ragi, na Praça Oswaldo Cruz, 124, em frente ao shopping Pátio Paulista.

Kobra a presenteou a São Paulo pelo aniversário da cidade, e também como forma de marcar a data de um ano do falecimento de Niemeyer.

De toda obra de Kobra, acredito que este painel seja o melhor exemplo de seu incrível estilo realista.

Outra obra nesse estilo característico de Kobra fica na Avenida Rebouças, não muito distante da anterior. Neste desenho, Kobra usa sua “marca” para chamar atenção para questões sociais subjacentes que se relacionam aos desabrigados e à pobreza extrema.

Quem passa pelo bairro de Vila Nova Conceição descobre mais duas obras do artista. Na primeira, Kobra imortaliza o craque Paulo Roberto Falcão, numa escala impressionante.

Kobra grafitou a comemoração emocionada de Falcão ao marcar o segundo gol do Brasil contra a Itália no Mundial de 1982, na partida em que a seleção brasileira foi eliminada pelos italianos que venceram por 3 a 2, frustrando o favoritismo do Brasil ao título de campeão.

Kobra também desenvolveu o projeto “Muro de Memórias”, no qual ele imortaliza cenas realistas de uma São Paulo antiga, resgatando memórias da metrópole, sua cidade natal.

Estas obras mergulham no passado, revelando cenas e personagens das primeiras décadas do século 20.

Quem passa pela esquina da rua Cardeal Arcoverde com rua Henrique Schaumann encontra dois murais justapostos.

O primeiro chamou minha atenção por ser uma versão do “Monumento às Bandeiras” que existe no parque Ibirapuera. No segundo, gostei do uso das cores-padrão do artista, mesmo sendo uma ilustração que tenta matar as saudades de uma São Paulo antiga.

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As questões sociais são tema constante na obra de Kobra. Foto: Charles Humpreys

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O futebol, paixão nacional, não fica de fora. Foto: Charles Humpreys

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Kobra homenageia sua cidade natal com uma ilustração do famoso Monumento às Bandeiras. Foto: Charles Humpreys

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Em cores fortes, Kobra tenta resgatar memórias de São Paulo. Foto: Charles Humpreys

Quem passa pela avenida Helio Pellegrino pode ver outra obra desse mesmo projeto. Achei o grafite abaixo interessante pela escolha do preto e branco para retratar os habitantes de São Paulo no começo do século 20. Mais uma vez Kobra grafitou com um realismo deslumbrante.

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Neste grafite, Kobra optou pelo branco e preto para dar um tom nostálgico na ilustração da São Paulo do começo do século 20. Foto: Charles Humpreys

Avenida 23 de Maio

Por último, mas não menos importante, incluo as criações que podem ser vistas ao longo do viaduto Jaceguai e na saída para a avenida 23 de Maio.

Primeiro, nos arcos da pequena rua que liga o viaduto com a avenida 23 de Maio.

Para mim, o grafite mais importante é uma obra de Mauro Neri da Silva, mais conhecido como Moura. Este é apenas um dos inúmeros murais de Mauro que se espalham por toda a cidade.

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“Ver a cidade” é uma obra do grafiteiro Moura. Foto: Charles Humpreys

A legenda “ver a cidade” passa aos habitantes uma mensagem sociourbana cifrada em um jogo de palavras: Ver a cidade ou Veracidade.

Mauro aplica esse duplo sentido em todas as suas criações.

Quem circula pela cidade encontra esses escritos em muros, escadarias e bancos de praças.

As obras chamam a atenção para problemas da cidade que precisam ser percebidos e solucionados, como a pobreza extrema e a questão dos desabrigados, entre outros.

Ao se chegar à saída para a avenida 23 de Maio, se vê a enorme intervenção feita por Nina Pandolfo, Nunca e Osgemeos.

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Um longo e multicolorido grafite feito em conjunto por Nina Pandolfo, Nunca e Osgemeos. Foto: Charles Humpreys

O que diferencia este grafite dos outros é justamente o tamanho e a localização. Embora nenhum dos elementos do mural, feito em conjunto pelos três artistas, carregue uma mensagem específica, o trabalho deve ser apreciado por sua beleza absoluta. Como é o caso de praticamente todas as obras de Nunca e Osgemeos.

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Um detalhe da enorme obra feita em conjunto pelos três grafiteiros. Foto: Charles Humpreys

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A obra de Nina Pandolfo, Nunca e Osgemeos enfeita o caminho diário de milhares de paulistanos. Foto: Charles Humpreys