JOÃO CARLOS MARTINS: “A Música Sempre Vence”

É o que mostra o pianista e maestro João Carlos Martins, um dos maiores intérpretes da música de Bach no mundo

Por Fernando Aires

Recentemente, o público que esteve no Lincoln Center, em Nova York, pode apreciar de perto o talento de jovens brasileiros que, inspirados no grande exemplo e na regência de um dos maiores maestros e pianistas do mundo, João Carlos Martins, apresentaram o encerramento da turnê “The American Concerts From Bach to Villa-Lobos”. Os músicos são da Filarmônica Bachiana Sesi-SP, que contou também com a participação da bateria da Vai-Vai.

O maestro considera este, um dos momentos mais marcantes de sua fase de regente. Como pianista, o homem que estreou aos 20 anos no Carnegie Hall, patrocinado pela ex-primeira dama estadunidense, Eleanor Roosevelt, também teve uma carreira gloriosa: foi o escolhido no Festival Casals, dentre inúmeros candidatos das três Américas, para dar o Recital Prêmio em Washington; inaugurou  o Glen Gould Memorial, em Toronto – Canadá; apresentou-se com as maiores orquestras americanas e gravou a obra completa de Bach para piano, tornando-se o maior intérprete do mundo do compositor alemão.

Contudo, o maestro conta que, embora alguns problemas tenham lhe afastado do piano, como quando teve um nervo rompido e perdeu os movimentos da mão direita em um jogo de futebol; depois com a doença “Contratura de Dupuytren”, que o fez tocar com a mão esquerda, e por fim, com a perda definitiva dos movimentos das mãos em um assalto na Bulgária, nada conseguiu separá-lo deste grande amigo, o piano, e muito menos da música, que ele busca levar a todas as comunidades carentes do país, com o objetivo de formar, até completar 80 anos, 1.000 orquestras brasileiras. Na entrevista abaixo, ele nos conta um pouco deste projeto de vida, sua trajetória, seu amor à música e à Lusinha, seu time do coração:

Portal R.A.J: Certa vez, o senhor afirmou que a interpretação do músico não poderia consistir apenas na leitura da partitura, mas sim, na necessidade deste de acrescentar a sua individualidade, o seu diferencial à obra do autor. Em suas apresentações, qual o diferencial que o senhor busca passar às obras?

João Carlos Martins: Sempre busco colocar minha personalidade na obra do autor, sem jamais esquecer da emoção. Transmitir emoção é a grande função de um artista. Sem emoção a obra não atinge o público e uma grande composição, que atravessa os séculos, tem que ser muito bem interpretada. Ela não conquistou tantas gerações por tanto tempo à toa.

Portal R.A.J: Como pianista e regente, existem individualidades diferentes na interpretação da música? Por quê?

João Carlos Martins: A relação do pianista com o piano é mais individual, é quase uma relação direta entre intérprete e instrumento. Já na regência você tem que transmitir para todos os músicos os seus sentimentos, e através deles passar a sua emoção. É uma relação mais ampla, se assim podemos definir.

 

Portal R.A.J: O seu irmão José Eduardo Martins também é pianista. O gosto pela música erudita e em especial pelo piano, foi motivado por algum outro músico na família? Além de Johan Sebastian Bach, quais outros compositores o senhor admira?

João Carlos Martins: Meu pai foi o nosso grande incentivador. Ele sonhava em ser pianista, mas não pode devido a um acidente que teve quando ainda menino. Ele trabalhava numa gráfica e na véspera de sua primeira aula de piano teve um dedo decepado na prensa da gráfica. Foi o seu amor pelo piano que nos levou a sermos músicos. Acho que Bach é o maior músico de todos os tempos, mas como regente também adoro Beethoven. São muitos os grandes mestres universais da música clássica, e no Brasil ressalto o grande Villa-Lobos.

 

Portal R.A.J: Com quem o senhor aprendeu a tocar piano?

João Carlos Martins: Comecei aos 8 anos de idade com a professora Aida de Vuono. Pouco tempo depois comecei a estudar com o José Kliass, um grande professor russo radicado aqui no Brasil.

Portal R.A.J: Na música popular, o que o senhor gosta mais de ouvir? Algum cantor ou conjunto preferido?

João Carlos Martins: Admiro muitos músicos populares, desde a bossa nova e o samba até o sertanejo. Recentemente fiz apresentações com a minha Bachiana e com Chitãozinho e Xororó, que acho espetaculares.

Portal R.A.J:  Após tantos anos atuando como pianista, como foi o aprendizado e o processo de adaptação para a regência?

João Carlos Martins: Como toda e qualquer transição, houve algumas dificuldades e até inseguranças, mas quando a gente acredita no que faz e vai em frente, sempre acaba dando certo.

Portal R.A.J: Onde e como foi a sua primeira experiência como regente? Hoje, onde o senhor sente que conseguiu expressar melhor a sua arte: a frente do piano ou da orquestra? Por quê?

João Carlos Martins: A minha primeira experiência foi na Sala São Paulo, num concerto beneficente. Na primeira parte toquei algumas peças simples ao piano e depois me despedi dele e assumi a regência da orquestra. Foi um momento muito emocionante. Como nos últimos anos como pianista enfrentei inúmeros obstáculos físicos para poder tocar, a orquestra é hoje uma satisfação imensa, sem jamais me esquecer do meu grande companheiro – por isso que em todo concerto, ao final, sento-me ao piano e com os meus famosos 3 ou 4 dedos, toco alguma peça para dividir minha emoção com o público.

 

Portal R.A.J: Por que razão, o senhor optou por se tornar Treinador de Boxe, em 85? Conquistou alguma façanha neste período? E depois, o que o fez retornar ao piano?

João Carlos Martins: Isso foi por acaso. Me encontrei com o Éder Jofre no elevador do prédio onde meu pai morava e perguntei a ele por que ele não tentava reconquistar o título mundial, e assim acabei sendo seu empresário nesta luta. Quando vi o Éder reconquistando seu título com 38 anos, me senti um covarde por te abandonado a música e voltei ao meu velho piano.

Portal R.A.J: E o que o fez então persistir na música?

João Carlos Martins: A música é minha vida e foi a minha salvação. Toda vez que me afastei dela tive momentos difíceis, e é com ela que vou ficar.

Portal R.A.J: Como nasceu a Filarmônica Bachiana Orquestra? De todas as apresentações com a Filarmônica, composta por jovens carentes, qual foi a mais emocionante? 

João Carlos Martins: A Bachiana nasceu do meu desejo, e de outros músicos, deformar uma orquestra brasileira da iniciativa privada com o objetivo de democratizar o acesso à música clássica. A cada apresentação a emoção é maior, e no dia 25 de setembro, no Lincoln Center lotado, em Nova York, tivemos um dos momentos mais emocionantes de nossa trajetória. Para você ter uma idéia, tive que retirar a orquestra do palco depois de mais de 20 minutos de bis e aplausos.

Portal R.A.J: Sobre sua vida, foram feitos dois documentários, o “Martin’s Passion” (“Paixão segundo Martins”) e o “Rêverie”, e agora, em 2012, uma terceira produção, só que brasileira, terá a mesma missão. Em que esta produção tende a se diferenciar das outras duas? Das anteriores, qual a que o senhor acredita que tenha passado melhor a sua mensagem ao público?

João Carlos Martins: Cada uma delas foi especial. O “Martin’s Passion”, um documentário alemão que ganhou vários prêmios internacionais, percorreu minha trajetória até o momento em que tive que abandonar o piano. O “Revêrie”, um documentário belga, abrangeu o início de minha carreira na regência. O próximo filme – “João” – que será dirigido pelo grande Bruno Barreto, é uma ficção, com atores desempenhando os papéis, e que tem por base a minha vida. 

Portal R.A.J: Como o senhor reagiu ao convite da Vai-vai, este ano, ao descobrir que sua vida, além dos filmes, inspiraria um samba enredo? Foi difícil a adaptação da música clássica à de carnaval? Gostaria de participar novamente de outros carnavais?

João Carlos Martins: Fiquei muito honrado, mas disse aos diretores da Vai-Vai que a minha vida ia acabar levando a escola para o grupo de acesso. Um grande amigo, o Antonio Zimmerle, quando soube da minha recusa perguntou se eu estava louco de recusar, que iria ser o máximo. Daí liguei para o pessoal da Vai-Vai e topei. Foi uma das maiores emoções da minha vida, e serei eternamente grato à Vai-Vai e toda a sua comunidade pelo carinho e respeito com que fizeram este carnaval e que trouxe mais um título para a escola.

Portal R.A.J: Mesmo com tantos problemas sociais, a música está vencendo no Brasil? 

João Carlos Martins: A música sempre vence!

Portal R.A.J: O que lhe motivou, de repente, a “garimpar” talentos pelo Brasil? O senhor Já afirmou em várias entrevistas, que quando completar 80 anos, o Brasil terá 1.000 orquestras novas. Sua capacidade e empenho são inquestionáveis, maestro, contudo, é possível que o Brasil até lá, esteja pronto para tal privilégio?

João Carlos Martins: Acredito no talento, acredito no Brasil, acredito nas 1.000 orquestras e, mais do que qualquer outra coisa, acredito na música.

Portal R.A.J:  Maestro, com todo respeito, com uma história de vida tão bonita, repleta de vitórias e superações e que se tornou tema de dois filmes estrangeiros, quem desconhece sua predileção pela Portuguesa, vai jurar que o senhor é corintiano! Brincadeiras a parte, mesmo com as apresentações, viagens e ensaios, o senhor consegue acompanhar os jogos da Lusinha? Quando veio a paixão pela Portuguesa?

João Carlos Martins: Toda vez que posso, faço questão de ir ao Canindé, mas mesmo quando estou fora do Brasil, ligo perguntando os resultados dos jogos. A minha paixão pela Lusa começou quando eu tinha 5 anos e fui assistir a um treino do time. Naquela época eles treinavam no Parque Ibirapuera, e durante o treino levei uma bolada e desmaiei. Quando acordei todos os jogadores estavam em volta de mim para me acudir – virei torcedor da Lusa desde aquele dia.

Portal R.A.J: O senhor que chegou a treinar junto, de brincadeira, com os titulares do clube, alguma vez imaginou-se jogador de futebol? Qual jogo da Lusa e contra quem, o senhor se lembra com mais emoção?

João Carlos Martins: Meu primeiro acidente foi treinando com o time da Lusa, no Central Park, em Nova York. Sempre adorei futebol e durante muitos anos tínhamos jogos com os amigos aos sábados, mas sei que meu lugar não é no campo. O jogo que mais me emocionou foi quando eu tinha 7 anos de idade e ganhamos de 7 X 3 contra o Corínthians.

Portal R.A.J: Se pudesse escolher apenas uma, qual seria a música que melhor representaria sua vida? Por quê?

João Carlos Martins: A Sinfonia Inacabada de Schubert, por que para mim a vida sempre continua!