SP: 6/09/16 – 15h24

A arte que segue por toda vida

O escritor, roteirista e cineasta Fernando Bonassi mostra porque atrair o público infantil na TV ainda é privilégio de poucos

Por Fernando Aires

b3A criançada ficou empolgada quando alguns de seus livros foram sorteados na Biblioteca Hans Christian Andersen, no Tatuapé, em São Paulo. Dentre os exemplares estava “A Incrível História de Naldinho, um bandidão ou um Anjinho”, e que foi baseado na história real de “Naldinho”, um ex-interno da Febem, morto há alguns anos em um tiroteio com a polícia. Perguntas e mais perguntas surgiam também, a respeito de seus clássicos programas da TV Cultura – por ele redigidos, como “Castelo Rá – Tim – Bum”, “Mundo da Lua” e outros. Além destes programas, o escritor, roteirista e cineasta nascido no bairro da Mooca, redigiu também os filmes “Carandirú”, baseado no livro do dr. Dráuzio Varella; “Cazuza, o Tempo Não Para” e “Sonhos Tropicais”. O escritor, que participou do “Programa Cultural Escritor na Biblioteca”, é Fernando Bonassi. Na ocasião, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal R.A.J! ACOMPANHE!

PORTAL R.A.J: Você é sempre lembrado em virtude da qualidade de programas como o “Rá Tim Bum”, por exemplo. Atualmente, a televisão atende bem às necessidades da garotada? Onde ela peca?

F. BONASSI: Não. Não é prática no Brasil que a programação infantil esteja voltada para a verdadeira educação sensível das crianças. Ainda quem manda na programação infantil são os anunciantes, cujos poucos escrúpulos conhecemos muito bem.

PORTAL R.A.J: Como surgiu a idéia de programas tão atuais como o Rá Tim Bum, Mundo da Lua, dentre outros?

F.BONASSI: Quem criou foi o Flávio de Souza, o pessoal do Olhar Eletrônico na época. Gente extremamente competente, que está aí criando até hoje. O fator favorável é que, naquela época, a TV Cultura erra uma TV Educativa de fato, e não mais uma emissora bancada por anúncios, que se tornou. Podíamos falar e tratar de educação infantil, sem precisar vender, doces, hambúrgueres e doces podres, pochetes, bonecas e outros lixos da indústria.

PORTAL R.A.J: Por que tais programas mesmo sendo tão bons, duraram tão pouco tempo? Atualmente, existe a possibilidade de “reinventa-los”?

F.BONASSI: Porque há pouca gente afim de bancar educação de fato, sem interesses empresariais escrotos. A possibilidade de reinventá-os está relacionada a responsabilidade dos empresários de comunicação e propaganda. Mas esse não é um momento em que essa gente seja grande coisa.

b1PORTAL R.A.J: Entre aquela época e a atual, do que você sente mais saudade?

F.BONASSI: Nos últimos anos a nossa TV se profissionalizou muito. Do que eu tenho saudade é de ver um programa infantil melhor. Eles pioraram.

PORTAL R.A.J: O livro “A Incrível História de Naldinho (Um Bandidão ou um Anjinho)” é voltado às crianças de 4 a 8 anos. O assunto não é pesado demais para esse público?

F.BONASSI: As crianças brasileiras vêem tanta barbaridade que já estão preparadas sim pra discutir o mundo real, dentro do universo delas, é lógico, e de acordo com sacações pedagógicas e didáticas, mas é possível. São crianças muito sensíveis e atentas.

PORTAL R.A.J: No filme Carandiru, você teve contato direto com os presos, chegou a sentir algum medo? Precisou elaborar algum trabalho especial com os detentos antes de filmar?

F.BONASSI: Fui muito bem tratado na prisão, mesmo nas eventuais situações de risco. Todos sabiam que o filme iria retratar algo importante e inédito e todos colaboraram.

PORTAL R.A.J: O filme “Cazuza, o Tempo Não Para”, mostra uma história que se repete em inúmeras famílias, sejam pobres ou ricas. Apesar de tanta informação, o que falta à sociedade hoje? É tudo apenas questão de segurança pública? 

F.BONASSI: O problema é a falta de discussão deste assunto, drogas, na escola na TV em todos os lugares. Quem usa? Por que usa? Quando usa? É preciso discutir o assunto socialmente.

PORTAL R.A.J: Como surgiu a proposta da série global “Força Tarefa”? Os casos são todos reais?

F.BONASSI: Eu e o escritor Marçal Aquino fomos convidados pela Globo para fazer um seriado policial. Força Tarefa é o resultado. Deu certo. Estamos indo pra terceira temporada e a audiência cresce.

PORTAL R.A.J: Você chegou a ter algum problema com certa história? Algum caso mais complicado?

F.BONASSI: Fazemos o que queremos, nos dão muita liberdade.

PORTAL R.A.J: A mensagem da série vai de encontro com a do filme “Tropa de Elite” e aí é de se perguntar: mostrar os casos de corrupção dentro da corporação, cometidos por “bandidos de farda”, não prejudica um pouco a ação do bom policiamento junto às comunidades? Como mostrar a diferença entre os dois lados?

F.BONASSI: Não se pode falar de violência no Brasil, sem tratar da violência da polícia e do desleixo com que a função do policial é tratada pelas nossas elites. Nesse sentido, filmes e séries podem nos ajudar a enxergar melhor e mudar essa realidade.

PORTAL R.A.J: Além dos trabalhos para o “Força Tarefa”, você está escrevendo algum roteiro para um novo programa? Poderia nos contar a respeito? Quais são os seus projetos para o futuro?

F.BONASSI: Não. No momento só alguns contos. A TV absorve muito do meu tempo. Pretendo terminar um livro de contos que estou tocando e desaparecer para escrever um novo romance.